Ouro Preto costuma ser lembrada por suas igrejas, casarões, esculturas e obras de arte.
Mas existe outra história, menos visível, que também ajudou a construir a cidade: a história de quem trabalhava para que tudo aquilo existisse.
Desde os tempos de Vila Rica, diferentes trabalhadores especializados atuaram na construção, ornamentação e vida cotidiana da cidade. Pintores, entalhadores, escultores, ferreiros, ourives, pedreiros e outros artífices faziam parte da dinâmica de uma sociedade em transformação.
Estudos sobre Vila Rica no século XVIII mostram a presença de artífices e oficiais mecânicos envolvidos, entre outras atividades, na pintura, no entalhe e na ornamentação dos templos religiosos. A documentação paroquial, além de testamentos e inventários, permite reconstruir parte das trajetórias dessas pessoas e de suas famílias.
Esses trabalhadores não eram apenas executores de tarefas.
Seus conhecimentos técnicos eram fundamentais para transformar materiais em objetos, construções e obras que hoje fazem parte do patrimônio de Ouro Preto.
Ao longo do tempo, diferentes ofícios também se relacionaram com atividades econômicas e formas de sobrevivência das comunidades.
O artesanato em pedra-sabão é um exemplo. Em Mata dos Palmitos, estudo realizado pelo CETEM identificou uma comunidade fortemente dedicada ao artesanato mineral e destacou sua importância histórica, cultural e econômica. O trabalho era realizado, em grande parte, no ambiente familiar e peridomiciliar, envolvendo diferentes integrantes das famílias.
Outros saberes permaneceram ou ganharam novas formas.
O ofício de bordadeiras e rendeiras, por exemplo, mantém uma tradição transmitida principalmente entre mulheres e famílias e foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial de Ouro Preto em 2019.
Também há experiências de recuperação e transmissão de técnicas históricas. A tradicional Cerâmica Saramenha, cuja origem em Vila Rica remonta ao início do século XIX, desapareceu como produção corrente em meados do século XX e posteriormente passou a ser objeto de iniciativas de resgate, como a Escola Saramenha de Artes e Ofícios.
Essas histórias ajudam a ampliar a maneira como enxergamos o patrimônio.
Uma igreja barroca pode ser admirada como obra arquitetônica.
Mas também pode ser entendida como resultado de uma cadeia de conhecimentos, materiais, técnicas e trabalhos.
Uma peça de pedra-sabão pode ser vista como artesanato.
Mas também pode revelar uma relação histórica entre território, matéria-prima, família e trabalho.
Um bordado pode parecer apenas um objeto decorativo.
Mas também pode carregar um saber transmitido entre gerações.
Os ofícios ajudam a contar a história de Ouro Preto pelas mãos de quem construiu, criou, transformou e continua fazendo.
Fontes consultadas:
Centro de Tecnologia Mineral – CETEM. Gênero e trabalho infantil na pequena mineração: Brasil, Peru, Argentina, Bolívia / estudo sobre o trabalho familiar no artesanato de pedra-sabão em Ouro Preto.
Prefeitura Municipal de Ouro Preto – documentação sobre o Ofício de Bordadeiras e Rendeiras de Ouro Preto.
Araújo, Jeaneth Xavier de. Artífices e oficiais mecânicos em Vila Rica no século XVIII: pintores e entalhadores. Anais do XIII Encontro Regional de História.
Fundação de Arte de Ouro Preto – Núcleo de Arte e Ofícios.
Em breve
Novas histórias, lugares, sabores e saberes de Ouro Preto.